3 de junho de 2017

o dia 28

Avô,

No passado domingo contámos quatro meses desde que saiu do alcance dos nossos olhos. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje, infelizmente. Adormecemos tristes, na sexta-feira. Se é que chegámos a adormecer. As notícias vindas do hospital não eram nada de bom. Tinha combinado com a Catarina ir fazer voluntariado para o CAFJEC, logo pela manhã. Acordei, quando tocou o despertador, para me aprontar e seguir os meus planos para aquele sábado. Acordei, levantei-me e reparei que estava alguém a chegar cá a casa. Fui à porta. Era o tio Tino. Chegava com a pior notícia que tive de receber em quase 24 anos de vida. A notícia da sua partida. A minha mãe desatou a chorar. Foi demasiado duro de ouvir. A madrugada tinha-o levado com ela. Como poderia ser possível? Não podia, não podia ser possível. A ideia de que não podia ser verdade manteve-se... manteve-se até você ter chegado a casa novamente... Da forma que mais tememos a vida inteira. Sim, porque tememos a morte a vida inteira. Se receber a notícia foi mau, vê-lo chegar a casa foi o cair de todas as expetativas de vida, foi sentir o mundo a cair aos meus pés, mesmo ali, e não poder fazer nada. Nada! Vê-lo chegar a casa, assim, foi o pior o momento da minha vida. O pior. Sem qualquer sombra de dúvidas. Nunca me senti tão triste, nunca me senti chorar tanto e ter vontade de chorar tanto. Gritar a minha raiva parecia ser a única forma de alívio, mas não era. E por isso não o fiz. Chorei, apenas. O Luís estava a segurar-me, naquele momento. Não queria olhar em frente, não podia ver chegá-lo assim. Só consegui olhar para o chão. À minha volta todos estavam tristes. E não precisava de olha-los para saber disso. Bastava ouvir. Ouvir o choro dos seus filhos, sentir a tristeza irremediável da avó fosse a que distância fosse. Os netos a quem deu os melhores conselhos, sempre. Estávamos todos desfeitos. Todas as nossas crenças se varreram naquele dia. Deixava-nos... Deixava-nos tão de repente, tão surpreendentemente. Porquê? Porquê assim? Foi a manhã mais terrível, o dia mais terrível, a noite mais terrível. Foi a semana mais terrível. Foi tudo pelo qual nunca quis passar.
Naquele sábado, 28 de janeiro, e tal como em todos os sábados, tinha que ir trabalhar. Ia para Serzedelo. Com que cabeça? Não sei. Mas fui. Foram os 90 minutos mais difíceis de toda a minha carreira, provavelmente. Contive as minhas lágrimas. Não consegui. Como seria suposto conseguir? Estava mais triste do que nunca. Puseram problemas na minha entrada no campo. Mal imaginavam a dor que transportava. Mal imaginavam a imagem que tinha na minha cabeça... o meu avô, o meu pai duas vezes, o dono da minha casa, partira naquela manhã... E eu tinha que estar ali. Em pé. De cabeça levantada. A pensar naquilo, naquele jogo. E, simultâneamente, a saber que o meu avô estava em casa. À minha espera. À espera de todos, da reunião de todos. A pedir que lhe rezassem. Estava ali, pronto a despedir-se de nós. O seu corpo, agora sem sentidos, à nossa espera. Superei as minhas próprias expetativas. Queria estar ali, mas não queria estar ali a sentir aquilo. A saber aquilo. Queria estar ali como sempre estive em qualquer lado. Queria ter saído de casa e ouvi-lo perguntar: "vais para onde?" e responder: "quer vir comigo?". Nunca queria, mas perguntava. Queria estar ali, em Serzedelo, a saber que, no final, iria para casa e íamos jantar todos juntos. Os seis. Como todos os dias da minha vida, até ali. Queria estar ali e saber que a vida era bela, corria tudo bem, estávamos todos felizes. Tínhamos os nossos criadores connosco. Todos os dias. Queria estar ali, em Serzedelo, com o meu avô vivo. Feliz. Sorridente e resmungão. Perto de nós, sempre.

Não há dor maior do que esta. Não pode haver.

27 de abril de 2017

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De todas as faltas que sinto, a sua é a que mais me dói. Avô.

26 de abril de 2017

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Você era tão bonito, avô...

Onde estará, agora, enquanto estou aqui perto de si? De que lugar do céu estará a olhar para mim? Tomara que eu soubesse. Olhá-lo-ia nos olhos. Estou desolada. Que ausência é esta que decidiu fazer-nos sentir? É demasiado doloroso. Não lhe sei virar as costas. Imagino como estará agora. Frágil. Mais do que nós aqui na terra? Não sei se acredito. Aqui é demasiado custoso. Duro. Quanto mais tempo teremos que aguentar? 

17 de abril de 2017

Uma Páscoa mais vazia...

16 de abril de 2017 (Dia de Páscoa)

18h00

Pairam agora sobre a mesa de Páscoa meia dúzia de rosas brancas. Elas representam o vazio que se apoderou de nós ao longo dos dias que passámos a preparar esta época festiva. Como me lembro de si agora, avô. Como me lembro do quanto gostava do dia de hoje. Sempre me pedia para o levar aqui e ali. Enquanto as pernas o deixaram seguiu a compasso pascal com devoção. Sempre com devoção. A avó tem repetido o dia todo: "ele gostava tanto disto". Se é verdade... Ela sabe. Todos sabemos. Não poder tê-lo aqui neste dia é das dores mais cruéis que terei que sentir. A sala está vazia, sem si. A mesa está vazia, apenas com as rosas brancas, em sinal do nosso luto, da nossa luta.
Estaria cansado se aqui estivesse, estamos à espera do compasso pascal, estava previsto para mais cedo, mas ninguém lhe põe os olhos. Andaria de um lado para o outro como uma barata tonta. Voltar-me-ia a pedir que o levasse aqui e ali. Que fosse consigo ver se ainda iam demorar. Estaria cansado se estivesse aqui. Você e a sua muleta, a sua perna envelhecida pelo tempo e pela vida.

Esta é uma Páscoa mais vazia. Um dia vivido com menos intensidade e menos alegria. Vejo a tristeza refletida no olhar de todos quantos, tal como eu, desejavam que aqui estivesse. A avó. A minha mãe. Os tios. Os primos. Todos sentimos o mesmo. Todos olhamos para a sala do mesmo modo. Falta ali alguém. O dono da casa. O pai da família. Ninguém gostava mais disto do que você. Lembro-me da alegria com que via chegar aqui a casa os seus amigos, de uma vida inteira, que vinham no segundo compasso para beber a tigela de vinho que nunca dispensou ter neste dia. As mesas postas no terraço. À espera. Quem me dera que ainda fosse assim hoje. Quase três meses após a sua partida.

As saudades não nos cabem no peito. A sua falta não nos cabe na alma. Nunca caberá.
As minhas lágrimas continuam a cair sobre as teclas deste computador. A vida é tão dura.

14 de fevereiro de 2017

# da saudade, avô

"Qualquer dia morrofilho. E depois vamos os dois ter saudades da vida que não partilhámos”, escreveu Inês Pedrosa, num dos seus livros que já me passaram pelas mãos. Quão triste, quão infinitamente triste é ler esta frase, sentir esta frase, agora. Quão inacreditavelmente triste é saber, perceber, o sentido que ela faz e o quão aterrorizante ela é. De todos os males da morte, o pior deles  é que ela nos faz acordar, mas faz-nos acordar demasiado tarde.
Os dias aqui por casa vão sendo duros, avô. Escrevo-lhe inevitavelmente lavada em lágrimas. A minha dor é suportável, não é que me caiba no peito, mas sou eu a senti-la e só eu sei o que fazer com ela. O meu maior refúgio é  não pensar. Não sei se é bom ou mau, mas vai-me adiando a dor, amenizando-a, guardando-a numa das gavetas do coração. É difícil aceitar que já não está connosco, mas mais difícil ainda é ver a avó sofrer, é ver sofrer todos aqueles que me rodeiam. Foi tudo tão rápido, tão inesperado. Se ontem estava sentado naquela cadeira, em frente à lareira, hoje estamos a vê-lo deixar-nos. Desapareceu das nossas vistas, que jeito tão cruel de o fazer.
Passaram pouco mais de duas semanas e todos os dias sentimos a falta que nos faz! Todos os dias acordamos com vontade de o encontrar ali, sentado na cadeia que até então era sua e apenas sua, com as pernas esticadas por força das incapacidades do corpo. Ali, olhando a rua através da janela. Quantas vezes lhe quis puxar o cortinado e não me deixou, porque ver a rua era bem melhor do que olhar para um pano branco. Que parva! Por que é que eu insistia em fechar aquela porcaria? Se isso lhe tivesse dado anos de vida, avô, tê-lo deixado-ia aberto para sempre, todo o sempre. Todos os dias sentimos a sua falta na mesa, às refeições. A avó  ocupou o seu lugar, agora senta-se na sua cadeira. Nem imagina a falta que lhe faz. Todas as noites ela se deita em sinal de sacrifício, porque sabe que perdeu a companhia dela. Nem consigo imaginar o que é dormir todas as noites ao lado de alguém, durante 57 anos e, de repente, essa pessoa desaparece. Todos os dias liga o radio, o rádio que era seu, e reza o terço. Agora sozinha. Pelo menos em corpo.
No outro dia arrumei o seu quarto. Não consegui conter as lágrimas enquanto troquei os lençóis da cama. A sua almofada dura, vazia, ainda marcada pelo suor dos seus últimos dias. O seu lado da cama sem marcas de uso. Vazio também ele. A sua roupa dobrada para ser guardada, arrumada ou dada. Qualquer palavra é demasiado cruel. Qualquer verbo que dê a entender que nos deixou é demasiado doloroso de ouvir ou de ler. Quando abri o armário, vi os seus casacos pendurados. A dor que senti por saber que não mais seriam usados por si, que não voltarei a vê-lo tal como você era. Elegante, sempre foi, as faces da cara detalhadamente definidas. Se havia homem bonito era você, avô. Uma beleza que não se explica, uma beleza que simplesmente desperta a vontade de lhe tocar. Tarde de mais. Sei que está entre nós, não tenho a menor dúvida, mas a sua presença espiritual não substitui a sua voz grossa e severa, que nos deixava em sentido. O seu jeito casmurro e o humor com que sempre viveu a vida. O mundo tem poucas pessoas como você. Nunca deixou que faltasse nada a quem vivia à sua volta, fosse essa pessoa a sua esposa ou o vizinho do lado. Viveu a vida com uma responsabilidade exemplar. Os quase 24 anos que passei ao seu lado, a viver debaixo do seu teto, fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Sei que muitas vezes não fui a melhor pessoa do mundo consigo e também sei que agora é tarde de mais para desculpas ou arrependimentos, mas avô... os dias não são os mesmos sem si. A vida não é a mesma sem si. É mais triste, está mais escura. 

Espero, sobretudo, que consiga ver agora a falta que nos faz. A falta que faz à avó que, mais do que nunca, vive sob um profundo sentimento de solidão. Espero que saiba que o queríamos ter ali na sala, a ocupar os bancos todos da mesa só para conseguir estar confortável.

A saudade, quando advém da morte, é o sentimento mais duro e mais difícil de suportar. Vou limpar as lágrimas, já que não posso limpar a dor nem trazê-lo de volta, e vou dormir. São quase quatro da manhã e aposto que sabe o dia longo que tive. Faltou-me a sua companhia durante a tarde, eu no sofá e você na cadeira. Se pudesse fazê-lo voltar para casa... 
Até já, avô.



15 de julho de 2015

NOS Alive'15

Venho aqui para partilhar algumas fotos que tirei nos três dias que passei no NOS Alive. Só para não ter isto parado por tanto tempo.

Um beijinho.

Dia 1:


A primeira foto, a primeira paragem na viagem de ida.


O primeiro passo de alguém que acampa e a pobre coitada da Inês que arranjou duas amigas completamente analfabetas na arte de montar tendas.


Depois da tenda montada, descanso precisa-se.


A nossa mansão e as amigas mais tones à face da terra. Este é um quadro que mostra como não me importaria de viver assim por muito tempo. Se acampar não cansasse tanto... 


Cedo começou a palhaçada.


Tempo para refrescar na piscina. E tentar morenar. Mas a Joana diz que o sol de Lisboa não presta.


O concertozaco dos MUSE! Que incrível! 


Um brinde à amizade!

Dia 2:


A piscina do campismo sempre à pinha de espanhóis e ingleses. Quase que andávamos todos a fazer moche sem querer.



As minhas cozinheiras preferidas. 


E eis que duas horas depois uma massa deliciosa aparece cozinhada. Maldito vento.



Prontas para mais uma aventura no recinto do NOS Alive!



É preciso dizer que somos felizes ou conseguem perceber isso nestas fotos?


A entrada mais fixe de sempre.


Mumford - mais um grande concerto!


Parece uma montagem tone.

Dia 3:


Porque somos as maiores.


Finalmente uma foto das três com o palco lá atrás. Lol


Sam Smith.


Um encontro especial: o Chisoka foi curtir Counting Crows.

O regresso a casa:


A melhor paragem de sempre. Ainda fomos ver as camisolas do Iker.


E pronto, finish. 

7 de junho de 2014

O ícone "escrever nova mensagem" é muito sugestivo, mas depois de abrir a caixa de texto é ver-me olhar p'ra ela e não conseguir escrever nada de jeito. Perdoem-me.

1 de junho de 2014

Futebol e jornalismo: duas paixões numa só

Fez um ano a 13 de janeiro que comecei a minha caminhada no mundo do jornalismo. Claro, iniciei-me com o futebol e, praticamente a meio da época, fiz o primeiro jogo (Martim-Bastuço Sto. Estêvão em juniores). Morri de medo. Nunca antes tinha sentido tanta responsabilidade. Fui fazendo, aqui e ali. Acabei a época com cerca de 20 jogos feitos. Tudo bem, época terminada, menos trabalho.
Pois bem, este ano foi diferente. Acompanhei desde o início tudo o que havia para acompanhar. 36 jogos. A partir de outubro somei à escrita a fotografia. Habituei-me a ir sozinha, coisa que antes nunca acontecia. Chuva, obrigação de tirar fotografias e ao mesmo tempo não deixar escapar à caneta os momentos mais importantes, e ninguém, ninguém, para me segurar no guarda-chuva. Raras eram as vezes em que um abrigo me garantia boa visão..
Frio! Ter de permanecer parada. Os pés a congelar, as mãos a congelar, o corpo todo a tremer e o cérebro a fritar. 'Naice'.
Nevoeiro. Quando não se via nada, nadinha, e eu sabia que o meu trabalho era apenas baseado na observação. Certo. Só mais um esforçozinho.
Sol. Um bom amigo, por vezes, e mau outras tantas. Ou me cegava, ou me aquecia, ou então fritava-me mesmo. Dass.

Muitas vezes me custou estar ali, exposta às condições climatéricas. Mas depois olhava para dentro de campo e percebia que, quando gostamos daquilo que fazemos, aguentamos tudo. Seja chuva, seja sol, seja o que for. Muitas vezes abdiquei de momentos com os meus amigos (e peço-lhes desculpa por isso, mas eles como ninguém sabem o quão importante isto é para mim), muitas vezes abdiquei de momentos com a minha família (mais um pedido de desculpas, mas tapado pelo orgulho). Mas convenci-me muitas vezes de que era ali que eu devia estar (e era). Convenci-me muitas vezes de que a vida nos dá oportunidades que temos de agarrar com tudo o que temos. E foi isso que aprendi a fazer. Deixei de me queixar. Deixei de me importar. Simplesmente ia. Pegava no papel, na caneta e na máquina fotográfica e dizia para mim mesma que ia ser feliz. E assim começou a ser. Jogo a jogo. Não é segredo para ninguém que adoro futebol, muito menos para mim, mas a partir de um certo momento comecei a perceber que não era só gostar. Sei lá. Às vezes era viver dele. Muitas outras, a maioria talvez, era senti-lo. Sentir a força que ele gere, a união que ele cria.
Não sei. Devo muito ao futebol. Devo muitos sorrisos ao futebol. Muitos momentos de alegria. Ao futebol e ao jornalismo.
Dada a época por terminada, já começo a sentir a falta de qualquer coisa. Gosto muito do verão, mas preciso que ele passe rápido.

A todos os que aparecem nas fotografias, com a vossa licença.