17 de abril de 2017

Uma Páscoa mais vazia...

16 de abril de 2017 (Dia de Páscoa)

18h00

Pairam agora sobre a mesa de Páscoa meia dúzia de rosas brancas. Elas representam o vazio que se apoderou de nós ao longo dos dias que passámos a preparar esta época festiva. Como me lembro de si agora, avô. Como me lembro do quanto gostava do dia de hoje. Sempre me pedia para o levar aqui e ali. Enquanto as pernas o deixaram seguiu a compasso pascal com devoção. Sempre com devoção. A avó tem repetido o dia todo: "ele gostava tanto disto". Se é verdade... Ela sabe. Todos sabemos. Não poder tê-lo aqui neste dia é das dores mais cruéis que terei que sentir. A sala está vazia, sem si. A mesa está vazia, apenas com as rosas brancas, em sinal do nosso luto, da nossa luta.
Estaria cansado se aqui estivesse, estamos à espera do compasso pascal, estava previsto para mais cedo, mas ninguém lhe põe os olhos. Andaria de um lado para o outro como uma barata tonta. Voltar-me-ia a pedir que o levasse aqui e ali. Que fosse consigo ver se ainda iam demorar. Estaria cansado se estivesse aqui. Você e a sua muleta, a sua perna envelhecida pelo tempo e pela vida.

Esta é uma Páscoa mais vazia. Um dia vivido com menos intensidade e menos alegria. Vejo a tristeza refletida no olhar de todos quantos, tal como eu, desejavam que aqui estivesse. A avó. A minha mãe. Os tios. Os primos. Todos sentimos o mesmo. Todos olhamos para a sala do mesmo modo. Falta ali alguém. O dono da casa. O pai da família. Ninguém gostava mais disto do que você. Lembro-me da alegria com que via chegar aqui a casa os seus amigos, de uma vida inteira, que vinham no segundo compasso para beber a tigela de vinho que nunca dispensou ter neste dia. As mesas postas no terraço. À espera. Quem me dera que ainda fosse assim hoje. Quase três meses após a sua partida.

As saudades não nos cabem no peito. A sua falta não nos cabe na alma. Nunca caberá.
As minhas lágrimas continuam a cair sobre as teclas deste computador. A vida é tão dura.

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