14 de fevereiro de 2017

# da saudade, avô

"Qualquer dia morrofilho. E depois vamos os dois ter saudades da vida que não partilhámos”, escreveu Inês Pedrosa, num dos seus livros que já me passaram pelas mãos. Quão triste, quão infinitamente triste é ler esta frase, sentir esta frase, agora. Quão inacreditavelmente triste é saber, perceber, o sentido que ela faz e o quão aterrorizante ela é. De todos os males da morte, o pior deles  é que ela nos faz acordar, mas faz-nos acordar demasiado tarde.
Os dias aqui por casa vão sendo duros, avô. Escrevo-lhe inevitavelmente lavada em lágrimas. A minha dor é suportável, não é que me caiba no peito, mas sou eu a senti-la e só eu sei o que fazer com ela. O meu maior refúgio é  não pensar. Não sei se é bom ou mau, mas vai-me adiando a dor, amenizando-a, guardando-a numa das gavetas do coração. É difícil aceitar que já não está connosco, mas mais difícil ainda é ver a avó sofrer, é ver sofrer todos aqueles que me rodeiam. Foi tudo tão rápido, tão inesperado. Se ontem estava sentado naquela cadeira, em frente à lareira, hoje estamos a vê-lo deixar-nos. Desapareceu das nossas vistas, que jeito tão cruel de o fazer.
Passaram pouco mais de duas semanas e todos os dias sentimos a falta que nos faz! Todos os dias acordamos com vontade de o encontrar ali, sentado na cadeia que até então era sua e apenas sua, com as pernas esticadas por força das incapacidades do corpo. Ali, olhando a rua através da janela. Quantas vezes lhe quis puxar o cortinado e não me deixou, porque ver a rua era bem melhor do que olhar para um pano branco. Que parva! Por que é que eu insistia em fechar aquela porcaria? Se isso lhe tivesse dado anos de vida, avô, tê-lo deixado-ia aberto para sempre, todo o sempre. Todos os dias sentimos a sua falta na mesa, às refeições. A avó  ocupou o seu lugar, agora senta-se na sua cadeira. Nem imagina a falta que lhe faz. Todas as noites ela se deita em sinal de sacrifício, porque sabe que perdeu a companhia dela. Nem consigo imaginar o que é dormir todas as noites ao lado de alguém, durante 57 anos e, de repente, essa pessoa desaparece. Todos os dias liga o radio, o rádio que era seu, e reza o terço. Agora sozinha. Pelo menos em corpo.
No outro dia arrumei o seu quarto. Não consegui conter as lágrimas enquanto troquei os lençóis da cama. A sua almofada dura, vazia, ainda marcada pelo suor dos seus últimos dias. O seu lado da cama sem marcas de uso. Vazio também ele. A sua roupa dobrada para ser guardada, arrumada ou dada. Qualquer palavra é demasiado cruel. Qualquer verbo que dê a entender que nos deixou é demasiado doloroso de ouvir ou de ler. Quando abri o armário, vi os seus casacos pendurados. A dor que senti por saber que não mais seriam usados por si, que não voltarei a vê-lo tal como você era. Elegante, sempre foi, as faces da cara detalhadamente definidas. Se havia homem bonito era você, avô. Uma beleza que não se explica, uma beleza que simplesmente desperta a vontade de lhe tocar. Tarde de mais. Sei que está entre nós, não tenho a menor dúvida, mas a sua presença espiritual não substitui a sua voz grossa e severa, que nos deixava em sentido. O seu jeito casmurro e o humor com que sempre viveu a vida. O mundo tem poucas pessoas como você. Nunca deixou que faltasse nada a quem vivia à sua volta, fosse essa pessoa a sua esposa ou o vizinho do lado. Viveu a vida com uma responsabilidade exemplar. Os quase 24 anos que passei ao seu lado, a viver debaixo do seu teto, fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Sei que muitas vezes não fui a melhor pessoa do mundo consigo e também sei que agora é tarde de mais para desculpas ou arrependimentos, mas avô... os dias não são os mesmos sem si. A vida não é a mesma sem si. É mais triste, está mais escura. 

Espero, sobretudo, que consiga ver agora a falta que nos faz. A falta que faz à avó que, mais do que nunca, vive sob um profundo sentimento de solidão. Espero que saiba que o queríamos ter ali na sala, a ocupar os bancos todos da mesa só para conseguir estar confortável.

A saudade, quando advém da morte, é o sentimento mais duro e mais difícil de suportar. Vou limpar as lágrimas, já que não posso limpar a dor nem trazê-lo de volta, e vou dormir. São quase quatro da manhã e aposto que sabe o dia longo que tive. Faltou-me a sua companhia durante a tarde, eu no sofá e você na cadeira. Se pudesse fazê-lo voltar para casa... 
Até já, avô.



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