24 de janeiro de 2014

como damos pelo passar do tempo

Quando eu era criança, quando ia completando os primeiros quatro anos de escola, sempre com o receio de levar um 'reguada' da professora ou com a incrível vontade de me ser atribuída uma bolinha verde, para um dia poder receber um prémio, o meu pai trabalhava numa fábrica, em Famalicão, e quando chegava a casa já passavam as 10 da noite. Nunca me deitava antes dessa hora, era lei que esperasse pelo meu pai e lhe fizesse companhia ao jantar (já sozinho, na mesa do salão. ele, o prato e uma toalha dobrada em quatro). Quando ele terminava, dava-lhe dois beijinhos e ia dormir. A minha mãe fazia-me sempre companhia. O meu irmão, provavelmente, já ia no seu quinto sono. Lembro-me disto, vagamente, e de pouco mais. Pouco tempo depois, o meu pai deixou a fábrica para abrir uma pequena empresa. Agora, mais de 10 anos depois, a história é outra. Sou eu que chego a casa às 10 da noite (às vezes às 11 ou até às 12). Sou eu que janto na mesa do salão, ou da cozinha (eu, o meu prato, e na maioria das vezes, nada mais). O meu pai, normalmente, já está na cama. A minha mãe espera-me. É ela que me faz sempre qualquer coisa (sim, estou numa fase da vida em que 'comer qualquer coisa' é o prato do dia). O meu irmão, esse, agarra-se ao computador. Os meus avós estão na cama. Se não estiver ninguém por perto, perguntam quem chegou e eu respondo: "sou eu". A resposta mais parva de sempre. Acabo por ser obrigada a ir lá dar a cara, para que a idade não os traia.
Agora, sou eu que luto pelo futuro. A medo. Mais de 10 anos depois. Quem diria. Parece que ainda ontem estava na escola, com alguns dos amigos que hoje ainda consigo manter bem perto de mim, a brincar às selvas ou a saltar à corda. Às vezes a empregada da escola vinha com a mania do jogo do lencinho. Ou alguém, para meu maior prazer, se lembrava de levar uma bola de futebol. Tudo isto quando não estávamos a escavar a parede para encontrar ouro ou a 'roubar' as bolachas de água e sal que eram o 'qualquer coisa' das professoras. E à noite lá estava eu. À espera do meu pai. Sempre fiel. Como o tempo passa. E como só conseguimos dar por ele quando os prazeres da vida já não são o que eram, quando nos apercebemos de que as coisas mais simples eram as melhores. E hoje, hoje já nem podemos voltar a passar por elas.

3 comentários:

C. ♥ disse...

Como eu te percebo!

Andreia Morais disse...

O tempo parece que passa a voar. Às vezes também dou por mim a remexer em memórias antigas e a pensar que tudo aquilo ainda ontem parecia tão recente. Mas é bom que o tempo passe, para vivermos novas aventuras e criarmos novas memórias. Mas, de facto, naquela altura não temos noção do quanto éramos felizes, por vezes com tão pouco. E hoje dá vontade de voltar atrás só para aproveitarmos aquele momento com o significado que devia ter verdadeiramente.

Beijinhos*

Andreia Morais disse...

Vou mudar de blog. Vou deixar de publicar no «Parte do que Sou» para me instalar definitivamente n' «As gavetas da minha casa encantada».
Espero por ti no meu novo porto de abrigo. Estou em:

http://asgavetasdaminhacasaencantada.blogspot.pt