17 de janeiro de 2012

A fidelidade (II)





"Não, meu amor. Não quero ver o teu olhar triste e magoado que me acusa, sem defesa, que me condena, sem entender. Tu não entendes, mas eu preciso da tua força para sobreviver. Preciso de ver o teu sorriso espantado e terno, como se tudo fosse novo  e claro, o teu riso inesperado e selvagem, que contagia todos à roda. Preciso de ver as tuas mãos seguras e firmes, arrancando à morte e à dor um corpo adormecido numa sala de operações onde todos respiram e estão suspensos dos teus gestos. Preciso de voltar a ver esse teu olhar cansado ao fim do dia, os ombros ligeiramente curvados, as palavras vagarosas, os olhos pisados pela luz do hospital e os gestos já ligeiramente desconexos e ausentes, de quem deu tudo e apenas espera recompor-se para dar outra vez. Quero-te vivo e igual a ti, como sempre te vi e te amei, para sentir-te ao meu lado para sempre, por maior que seja a distância física que criámos, a indiferença que tu imaginas que tenho e nunca tive nem terei." 

Miguel Sousa Tavares







2 comentários:

Mariana disse...

absolutamente maravilhoso, petrificante...

© hurricane disse...

lindo <3