16 de novembro de 2011

A Cor dos Anjos#6

"Caminhando pela manhã deserta, passei pelo hospital onde dantes fazia voluntariado e entrei para dar sangue. No dia de Natal há sempre mais feridos do que dadores, é uma coisa que não ocorre às pessoas. Fui ficando por lá, na sala de espera das urgências, consolando crianças feridas, algumas delas doentes e abandonadas. Passei o dia a inventar histórias de monstros afáveis em planetas distantes e consegui esquecer-me das horas. Desde que tu desapareceste, o tempo tornou-se pesado, cada hora repete a tua vida inteira e o desespero da tua ausência. Percebi que me conduziras os passos até este hospital para me ofereceres outra vez a possibilidade do riso.
Anjo lilás. Obrigado pelo teu presente de Natal. Sempre tiveste um talento especial para me surpreenderes. Deves moer o juízo ao velhote das barbas, ai em cima. Eu sei que não acreditava nele, nunca acreditei. Nem quando tu desapareceste no inferno das torres - a partir dessa data passei a odiá-lo. Claro que só se odeia aquilo em que se acredita, nisso tens razão, querida. O teu riso com guizos de renas, natal em todas as estações. Mas o pior é que quando muita gente acredita em alguma coisa, essa coisa passa a existir mesmo. Para mim o Grande Manipulador de Marionetas nunca existiu, mas já reparaste quantas guerras existem no mundo, desde sempre, por causa Dele? O teu riso com dedos de sol, a dizer-me que Ele é igual a mim, ao que imaginámos de nós. Tantas crianças sem ninguém, pelo mundo fora, sussurras-me tu. Nenhuma dela serias tu, digo-te eu, e o teu riso aquece-me, faz troça de mim. Preciso tanto que faças troça de mim. Talvez um dia encontre esse teu riso trocista, vais emprestá-lo a um rosto inesperado, provavelmente de uma cor diferente do teu. Tanto que tu gostavas de cores diferentes, da radiosa diferença de qualquer cor. O teu riso, agora em arco-íris, ilumina essa criança que ainda não conheço, que não sei se algum dia quererei conhecer. Talvez o riso seja mais contagioso que a dor. Talvez. Mas, por agora, dou as mãos à memória da tua voz para regressar a casa, dançando do passeio para o asfalto as canções de Nova Iorque que tu cantavas por cima da minha voz, quando eu te ralhava. Por agora, danço entre os arranhas-céus até que eles se diluam, danço como se tu pudesses renascer da água dos meus olhos, inundada de luz."

A Cor dos Anjos, Inês Pedrosa

Este é o fim da história que tenho andado a partilhar convosco. Se não leram as outras partes, leiam pelo menos esta que tem o seu 'quê' de emocionante e amoroso!
Uma boa noite, caros leitores!

2 comentários:

Ás de Copas disse...

Está mesmo emocionante *___* adorei

disse...

é realmente um livro ternurento, emotivo, que nos chama e nos pergunta "o que farias tu, se estivesses aqui, aqui a viver esta história?".