21 de agosto de 2011

A Cor dos Anjos#3

"Às vezes estou no café e levanto-me de repente, ergo a mão para te acenar quando tu entras. Então a rapariga verdadeira, que não és tu, franze o sobrolho, com um ar desconfiado, e eu vejo que aquele rosto não é o teu - embora, querida filha, tu fosses muito desconfiada. Muito crédula e muito desconfiada. Nunca chegaste a ter idade para o pacato meio termo. Desvio o olhar para o vazio, atrás da rapariga que já não és tu, e continuo a acenar, até que ela perceba que não estava a tentar meter conversa. Nos primeiros meses, quando eu corria para os braços dessas múltiplas mistificações de ti, elas acarinhavam-me: "Não, não sou eu, desculpe". Sorriam-me, tinham pena. Digam lá o que disserem, a pena é uma coisa boa. Tenho pena de ti, amor lindo, uma pena infelizmente muito intermitente, quase sempre mais pequena do que a raiva que tenho de mim mesmo. E a pena dos outros foi um grande conforto. Apaparicaram-me, levaram-me ao colo para a cadeira do psiquiatra. Até me arranjaram emprego. Evitaram cuidadosamente qualquer referência a filhos, em particular meninas. Agora já ninguém tem pena. Dizem-me que tenho que reagir, que a vida continua, que já lá vai um ano. Acham que estou a reagir bem, porque tomo todos os comprimidos que o shrink me impinge e trabalho que nem um louco, fins de semana incluídos. E engordei, o que é sempre um grande alivio para os amigos. Engordei porque carrego na dose de cerveja, e deixei de ter paciência para cozinhar. O rolo de carne que tu adoravas, os grelhados aromáticos que eu fazia quando tu não querias comer para não engordares., para que me serviriam agora? Vivo de fatias de pizza. Como já não ando a farejar namoros, nunca mais tive de fazer de conta que gosto de sushi. Nem tenho de me preocupar em olear os músculos no gym. A boa notícia é que já ninguém está preocupado comigo. A má notícia é exactamente a mesma. Caso eu tente falar de ti, um minuto que seja, cortam-me o pio. Dizem que já devia ter "feito o luto". Aparentemente, há um tempo certo para isso, e eu estava a pisar o risco. A tornar-me inconveniente. A ponto de chumbar, na opinião dos meus amigos. Depois de todo o apoio e carinho que me deram. Que ingrato, realmente. Todos acham que eu preciso de uma mulher. Há vinte e dois anos que vivo em Nova Iorque, e agora repararam que uma mulher faz sempre falta. Dantes, os homens invejavam-me os namoros ("não te cases, rapaz, não sejas parco") e as mulheres deles achavam que eu fazia bem em não te impor uma madrasta. Passavam a vida a gabar a minha relação excepcional contigo. Agora, pequenina, é como se tu nunca tivesses existido."

Continua...

A Cor dos Anjos, de Inês Pedrosa

3 comentários:

L' disse...

adoro, adoro o texto :o
as saudades não deviam existir, se bem que são uma forma dura de darmos valor à presença de quem mais amamos :$

Cath disse...

e conseguiste na perfeição, parabéns.

Ás de Copas disse...

mais um excerto magnifico *.*