9 de agosto de 2011

A Cor dos Anjos#1

"No ano passado toda a gente teve a delicadeza de não me falar do Natal. O Frank e a Martha arrastaram-me para casa dos pais deles no Connecticut, e nem um cheiro a azezinho havia no ar. Ninguém falou em estrelas, pinheiros ou iluminações, não houve presentes, nem esses christmas carols que tu andavas sempre a cantarolar. Meu anjo. A televisão esteve sempre ligada num canal culinário. Evitaram cuidadosamente tudo o que tivesse um qualquer laivo de juventude, music videos, desportos radicais. Nos canais normais eles tinham medo que aparecesse, pela milionésima centésima vez, a imagem do avião a entrar pelas torres, entrevistas com as famílias dos sobreviventes, ou aqueles infindáveis debates em que tu me morres outra vez, submersa no horror abstracto dos números. E depois há sempre alguém, do outro lado da mesa dos debates, que interrompe para perguntar: "E quantas morreram no Chile, a 11 de Setembro de 1933? E na Palestina ocupada? E em Hiroxima? E em...". E nessa altura tua morte já nem é nada, tu nunca foste ninguém - só a filha felizarda de um emigrante português cheio de sorte. Uma jovem felizarda que numa bela manhã de Setembro teve o azar de entrar no sitio errado à hora errada."

Continua...

A Cor dos Anjos, de Inês Pedrosa

6 comentários:

Ás de Copas disse...

wooow, que texto!

Mariana disse...

Mais um excerto fantástico!

sónia disse...

adorei! :)

Vanessa ൪ disse...

Estás a gostar de ler esse livro? :)

PR" disse...

Um dia digo-te porque achei isso :P
Dos três livros que (ao que percebi) leste dela, qual é que gostaste mais?

Joana disse...

adoro o blog, como o puseste assim?