20 de maio de 2011

No teu deserto #2


"E nós sempre ali, um ao lado do outro, todas as horas do dia, todos os dias, um a seguir ao outro. Às vezes calados durante horas, outras vezes à conversa durante horas - e as duas coisas eram boas, tanto o silêncio partilhado, como as conversas sobre tudo o que nos ocorria. Sempre ao teu lado e tu sempre ao meu lado. Sempre. Algumas vezes convidavam-me para viajar um dia ou parte dele noutro jipe, com outra companhia, outras conversas, uma distracção, para variar. Às vezes apetecia-me dizer que sim, mas depois olhava para ti, a arrumar as coisas no jipe antes de mais uma jornada de pista, trôpego de sono, exausto ainda o dia não tinha começado, e imaginava-te sozinho no jipe até ao pôr do Sol e não era capaz de te abandonar. Era como se te traísse. 
E agora eras tu que me abandonavas, que tinhas pressa de regressar à tua vida real - tão longe do deserto, tão longe do sonho, tão longe da nossa solidão a dois! Abandonavas-me assim, doente numa cama de hospital, como não se deve abandonar ninguém que nos ame, pois não? Foste-te embora, foram-se embora as outras visitas desse dia, uma enfermeira veio dar-me um remédio e mudar o frasco de soro, e eu fiquei sozinha, a pensar em ti e na tua visita. Através da janela do quarto, percebi que a tarde estava a acabar e que as luzes da cidade se iam já acendendo. Lá de fora vinha o ruído do trânsito ao fim do dia, um ruído de gente e automóveis apressados, gente que queria voltar para casa, onde estavam os que amavam ou os que se tinham habituado a amar, sem fazer demasiadas perguntas nem exigir nada mais do que esse amor tranquilo de todos os dias. É verdade que nunca quis ou nunca vivi para querer isso para mim. Queria mais, vê tu! Queria viver no limite todos os dias, queria que as coisas estivessem sempre a correr. Conhecer novas pessoas todo o tempo, sair, ir a discotecas, divertir-me todos os dias, sentir que podia seduzir todos à minha volta e brincar com isso. Mas agora, agora que a noite chegou e que fiquei sozinha, agora que te foste embora para a tua vida, agora que sei que também tu voltaste para uma casa onde tens alguém à tua espera, alguém que te ama, alguém que te dá paz, também a mim, de repente, me apetecia poder ir para casa e ter à minha espera alguém que me amasse. Não, não estou a dizer que queria que fosses tu. Não estou a dizer isso, estou a falar de alguém. Alguém sem nome.
Eu sei que algures, mais adiante na minha vida, hei-de encontrar quem esteja em casa à minha espera quando eu chegar. Sim, eu sei, está escrito, é sempre assim. Mas era agora que eu queria não sentir este vazio, não te sentir tão distante, tão longe do deserto. Queria só dar um sentido à nossa viagem. Já sei, já sei que nada dura para sempre - só as montanhas e os rios, meu sábio. Mas o que fomos nós um para o outro: apenas companheiros ocasionais de viagem? Com o tempo contado, com tudo previamente estabelecido e com prazo de validade previsto à partida? Foi só isso, diz-me, foi só isso o nosso encontro? Não ficou mais nada lá atrás, não deixámos nada de nós os dois no deserto que atravessámos?"
No teu deserto, Miguel Sousa Tavares

Revi-nos neste livro. Como se esta história fosse a nossa, como se tudo o que o autor escreve fosse o que eu senti e ainda sinto. E revi-me, a mim, nas palavras dele. Como já não me revia em nada há tanto tempo. Encontrei-me, encontrei os meus sentimentos no meio daquela imensidão de palavras. Agora tu partiste. Deixas-te-me sozinha aqui e assim, sem nada. Sem o teu amor e o teu carinho que tantas vezes me prometeste para sempre. Sem ti. Sem mim.
A única diferença é que no fim, no fim da nossa história, não morres tu... morro eu.




P.S: até domingo. Se Deus não quiser.

7 comentários:

Vanessa disse...

Tenho esse livro aqui para ler ..

Carla disse...

Adorei o texto. *.*

jorgedalte disse...

gostei!

bjs

M A R I S A ' disse...

acho que é mais do que nem sempre, é na maioria das vezes não cuidamos do amor que temos...

Sara Martins disse...

obrigada doçura <3

Cátia Mourisca disse...

LINDO!

Queu disse...

Já está x)