26 de outubro de 2010

é grande mas vale a pena ler

(...)
"Não, meu amor. Não quero ver o teu olhar triste e magoado que me acusa, sem defesa, que me condena, sem entender. Tu não entendes, mas eu preciso da tua força para sobreviver. Preciso de ver o teu sorriso espantado e terno, como se tudo fosse novo e claro, o teu sorriso inesperado e selvagem, que contagia todos à roda. Preciso de ver as tuas mãos seguras e firmes, arrancando à morte e à dor um corpo adormecido numa sala de operações onde todos respiram e estão suspensos dos teus gestos. Preciso de voltar a ver esse teu olhar cansado ao fim do dia, os ombros ligeiramente curvados, as palavras vagarosas, os olhos pisados pela luz do hospital e os gestos já ligeiramente desconexos e ausentes, de quem deu tudo e apenas espera recompor-se para dar outra vez. Quero-te vivo e igual a ti, como sempre te vi e te amei, para sentir-te ao meu lado para sempre, por maior que seja a distância física que criámos, a indiferença que tu imaginas que tenho e nunca tive nem terei.
Sei que se me pudesses ouvir me chamarias egoísta e me dirias que, como sempre, é só a minha vontade que conta. Estou sempre a falar contigo, mas tu não me ouves. Eu, porém, oiço-te e sem que tu fales e quando falas, adivinho o contrário do que tu dizes. Vejo-te à deriva e perdido e não te posso ajudar, porque tenho de me ajudar a mim. Tu não entendes, eu sei. Vives um conflito entre a tua força vital - que eu não te roubei, nem poderia - e a tua vontade de te deixares afundar, de te fechares no escuro da tua casa e maldizeres-me, interminavelmente. Tu e não eu, se encarregará da tarefa de destruir tudo o que vivemos, de acordo com a lei do excesso que é a única que compreendes: tudo ou nada, verdade ou mentira, amor ou ódio.
Tu odiar-me-ás e eu nada poderei fazer, senão sofrer o teu ódio em silêncio, sofrê-lo na carne, como açoites, dilacerando o meu corpo que foi teu tantas vezes, como nunca foi de mais ninguém.
Assim vou vivendo sem ti e sem procurar saber de ti. Mas sei de mim, sei do imenso vazio da tua falta, que nada preenche nem faz esquecer. (...)"

Miguel Sousa Tavares em Não te deixarei morrer, David Crockett

5 comentários:

catarinapeixoto * disse...

(L)

Vanessa disse...

que lindo, vai ser o próximo livro que vou comprar :)

Sara Martins disse...

está perfeito amor, perfeito. <3

Afonso Costa disse...

Gosto da forma expressiva dele descrever as coisas, adorei o excerto :)

beijinho

Queu disse...

Pessoas inteligentes que dizem coisas igualmente inteligentes (: