22 de agosto de 2010

"Alice, tu vas tombé, Alice!"

Era uma vez uma menina chamada Alice.
Alice, era filha de emigrantes portugueses. Consegui percebê-lo pelo seu português tremido e com sotaque francês. Mais tarde a minha tese comprovou-se.
Provavelmente, Alice, mudou os ares confusos da cidade pelo sossego do campo. Aquela pequena aldeia, bastante famosa por sinal, acolheu Alice como acolhe qualquer outra pessoa. Com hospitalidade, acima de tudo. Na verdade, o seu espírito rebelde não deixava ninguém indiferente. Talvez aquela rapariga tivesse bichos carpinteiros, talvez... Alice era tão ou mais irrequieta quanto os ramos das árvores em dias de brisa ou de ventania. Também tal como os ramos das árvores, talvez Alice tivesse desejos de se libertar da autoridade dos pais, necessidade de romper por momentos os laços paternais. Alice não era nem nunca fora criança de ficar presa ao mesmo sitio. Ela queria aventura. Queria ser como uma pássaro que voa para lá do horizonte. Um pássaro que alcança o inalcançável, que consegue o que sempre ambicionou conseguir! Alice era uma dádiva da natureza, uma ave com asas invisíveis ou uma flor cheia de vida e cor! Já ninguém duvidava que Alice apenas queria viver, mas viver de maneira diferente! Em tempos modernos Alice queria viver à moda antiga! Queria ser uma criança à moda antiga! Esqueceu os ares da cidade e adaptou-se àquilo que a natureza lhe proporcionava. Alice queria descobrir o que existia por de trás daquilo que via à primeira vista! Subir às árvores, correr pelos campos, subir encostas, mergulhar em águas frias e límpidas (...) Explorar, descobrir, encontrar e perceber! A vida de Alice era preenchida, dia após dia, por verbos tão simples quanto estes! E nada mais importava a Alice!
Nem a autoridade dos pais impedia Alice de cumprir as suas ambições, nada nem ninguém faria parar Alice!
Há uma frase que nunca me sairá da cabeça... Quando Alice ia ao café e eu lá estava, ela empoleirava-se nas grades do portão e saltitava para uma e para outra, para uma e para outra. E não parava... Os pais de Alice não ficavam indiferentes a isto! Aliás, ninguém ficava! Mas os pais de Alice não ficavam indiferentes pelo mesmo motivo que os restantes clientes. Todos os restantes clientes ficavam boquiabertos com a alegria de Alice, a energia de Alice, a amabilidade de Alice! Os pais de Alice não... Os pais de Alice estavam sempre a dizer: "Alice, tu vas tombé, Alice!". Mas Alice nunca parava! Era mais forte que ela, talvez!
Na verdade Alice era criança, uma criança que se sentia livre e feliz! E não havia ninguém que conseguisse mudar isto. Porque mesmo sendo criança, Alice levava os seus sonhos avante! Ao contrário de muitos adultos, Alice era um exemplo a seguir!

Hoje não sei o que é feito de Alice. Eu gostava de Alice e Alice gostava de mim. Em muito pouco tempo, Alice começou a acompanhar-me em muitos passeios de bicicleta, Alice chegou a ir a minha casa. E até a minha mãe gostava de Alice. Não me lembro se voltei a ver Alice depois desse ano. Mas lembro-me que da terceira vez que lá fui, Alice tinha desaparecido. Provavelmente cresceu e encontrou outras prioridades... Não sei... E tenho pena. Tenho pena que assim tivesse sido. Eu gostava de Alice...
Mas mais do que saudades de Alice, tenho saudades de uma aldeia que nos acolheu com carinho. Tenho saudades do cheiro a estrume, do aroma natural daquele lugar. Tenho saudades de acordar ás 6 da manhã com os guisos das vacas que iam pastar. Já lá não vou à 3 ou 4 anos. E por este andar não ponho lá os pés tão cedo. Ainda hoje insisti com o meu pai para irmos ao congresso, mas ele não me deu trela...

Vilar de Perdizes, Montalegre

16 comentários:

Marcela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ariana disse...

Que história linda, emocionei!

Adorei!

bjos

La sonrisa de Hiperión disse...

Encantador blog el tuyo, un placer haberme pasado por tu espacio.

Saludos y un abrazo.

- Silvia ♔ disse...

- desculpa a ausência.
- adorei o post +.+

lara disse...

Hás-de lá voltar e hás-de lá encontrar essa ou outra Alice e hão-de gostar as duas uma da outra. Adoro acordar cedo no campo e sentir a brisa e o cheirinho que naquele momento parece ser a essência adequada. gosto de Alice, o nome Alice é lindo e nunca me tinha apercebido disso

RuteRita disse...

Odeio estar assim. odeio mesmo..

aluisio martins disse...

vivi cada trecho aqui, ainda que nunca tenha pisado o mesmo chão e de Alice, desta Alice, nada saiba, vivi tudo isso em vida sonhada ou não, real demais...
belo, bravo!
abs

Mafalda Marques disse...

Gostei muito (:

Mel disse...

gosteii

Moreira disse...

Agradecia que desses a tua opinião no meu blog, obrigado ;)

Catarina disse...

Vais ver que sim querida, tudo se vai resolver, e pela positiva :D

lara disse...

vamos aguardar que assim seja.

RuteRita disse...

enfim... que se pode fazer?

Mafalda Marques disse...

Obrigada (:
Segui ^^

Mafalda Marques disse...

Obrigada, ofereço-te o meu selinho ^^

ti em mim disse...

todos temos um bocadinho dessa Alice dentro de nós (:

adorei o texto =)