20 de abril de 2010

ninguém disse que a vida era justa

Tinha acabado de sair do treino... Dirigia-me a casa quando me lembrei de enviar uma mensagem: "estás em casa?" "estamos, mas vamos à capela..."! Mal li isto o meu pensamento foi: "Também vou! tenho de ir!" e desatei a correr. Cheguei a casa, nem jantei, tomei banho e vesti algo simples. Um casaco preto, claro! Ainda tive de esperar pelo meu irmão que é pior que as meninas! Saimos de casa.. Chegamos à capela e estava lá imensa gente! Não é para menos... O homem era honesto, conhecia montes de gente e não fazia mal a uma mosca!
Entrei na capela e o cenário foi: um caixão, um ser sem vida, o preto dominava, dezenas de ramos de flores rodeavam o corpo, choros, vozes, ... E o que mais se sobresaiu foi aquilo que eu mais temia... A esposa... A auxiliar dos meus tempos de primária, e ainda o é, e minha catequista nos meus 10 anos de catequese... Completamente despedaçada, a chorar e com certeza com o coração feito em pedaços! Se me doeu? Claro que doeu! Queria tudo menos vê-la naquela estado! Tenho todo o respeito por ela e ela também fez parte da minha educação! 
Estive lá pouco menos de uma hora. Fiz a minha homenagem ao corpo, à minha maneira. Aquele homem era das pessoas mais bondosas da freguesia. Foi presidente da junta durante vários anos e foi talvez o melhor presidente que a comunidade de cá alguma vez conheceu! Ele não merecia, não merecia isto tão cedo! Acredito que a familia já estivesse à espera, tendo em conta que ele esteve internado no hospital, na sala da fase terminal, à algum tempo. Tinha um cancro, julgo que era na cabeça, e já estava bastante alastrado pelo corpo. Mas mesmo assim, foi cedo demais! Foi demasiado repentino! Um homem como ele merecia viver mais uns bons anos! Ainda era novo...
Quase uma hora, para mim, é tempo a mais para estar ali a olhar para alguém que não tem reacção possivel... Arrepia-me. Mas eu sabia que não me pudia ir embora sem mostrar o meu apoio pela esposa. E esperei pela melhor oportunidade. Quando a tive não hesitei. Fui comprimentar a senhora. Confeço que fiquei com as lágrimas nos olhos... Não sou pessoa de muitos choros nestas coisas, talvez porque nunca assisti à partida eterna de alguém que me fosse verdadeiramente chegado. Mas naquele momento apetecia-me chorar.
Dei dois beijos na senhora e ela abraçou-me. Abraçou-me de tal maneira que eu senti por poucos segundos a dor dela. Foi repentino mas deu para sentir. Lembro-me de ela me sussurrar umas palavras de forma tremida, não me lembro o que me disse. Apenas me lembro dela me ter dito: "Obrigada por este bocadinho, Armanda..." tentei dizer-lhe que era o meu dever tanto por respeito a ela como ao marido, mas não consegui. Apenas me saiu um leve e timido 'até amanhã'... Quando saí senti os olhos pesados e com vontade de chorar, mas não o fiz. Não gosto de mostrar perante os meus pais e muito menos perante o meu irmão que estou comovida e que algo me afectou. Conti-me. 
E de certa forma a minha vontade de chorar também me fazia sentir raiva... Raiva. Raiva por irem os que não devem. Por partirem aqueles que praticam o bem. Cada vez mais a vida se demonstra injusta... E assim será, para sempre.

1 comentário:

sofia. disse...

realmente, a vida é mesmo injusta. mas às vezes tem de ser assim .
oh, não te contenhas. sabes, às vezes chorar é bom . ou então não chores ate estares sozinha (: